Tudo pode ser comprado pela internet. Pedimos comida via aplicativos, compramos eletrodomésticos e eletrônicos em sites especializados. Roupas, móveis, itens de papelaria, decoração, até plantas: o que quisermos comprar, a internet tem. Só que ainda existem algumas áreas que não encontraram a melhor maneira de entregar seus produtos na porta de casa, e uma delas é a de supermercados.
O delivery do supermercado não é nenhuma novidade. Em 1989 já existia um serviço em que o cliente selecionava os produtos em um site para receber em casa, o Peapod. Ele está na ativa até hoje nos EUA, mas nunca encontrou um modelo de negócio realmente lucrativo, e ainda enfrenta a resistência do consumidor em fazer suas compras do mês pela internet.
Além do Peapod, tem a Amazon, que adquiriu em 2017 a Whole Foods e faz entregas de comida fresca para seus usuários Premium. O Walmart já é um velho conhecido do varejo online, e também em 2017 comprou uma empresa especializada em entregas rápidas para melhorar seu serviço. Segundo um relatório do Deutsche Bank Securities, cerca de 3% dos consumidores norte-americanos, apenas, fazem esse tipo de compra online.
Mas por que ainda é tão difícil para os consumidores fazerem suas compras de comida e mantimentos pela internet?
Questão de logística
Estocar e embalar um grande número de itens variados é um dos principais desafios dos supermercados online.
A logística é um dos grandes problemas a serem resolvidos por essas empresas. Um pedido médio no Peapod, por exemplo, pode conter até 52 itens, entre bebidas, snacks, frutas e produtos de limpeza. Não é só escolher um produto, embalar e enviar, mas fazer isso de forma correta e sem danificar o alimento. Para os mercados, ainda é mais prático os consumidores irem até suas lojas e fazerem suas próprias compras.
Outra questão é o estoque. Enquanto a Amazon consegue estocar em seus depósitos grande quantidade de produtos, supermercados lidam com mercadorias mais sensíveis. Frutas, legumes e carnes perecem rápido, as entregas e reposições devem ser feitas com frequência muito maior.
Os custos altos de entrega e armazenamento acabam se voltando, claro, para o consumidor. Mas além da barreira do preço, ainda há uma questão cultural a ser resolvida. Ir para o mercado e fazer uma compra é quase que um passatempo: você anda pelas prateleiras, escolhe o que quer, decide entre marcas, toma decisões de compra na hora em que está lá. Tem quem não queira deixar esse costume para trás.
Há espaço para expandir
Enquanto 3% dos norte-americanos fazem o mercado do mês pela internet, 20% dos sul coreanos já compram online. No Brasil são só 2%.
Em outros países o supermercado online vai muito melhor do que nos EUA. Um relatório do Kantar Consulting aponta que na Coreia do Sul 20% dos consumidores fazem seu mercado do mês pela internet. No Reino Unido e no Japão, são 7.5%. A diferença desses lugares para os EUA é que a população está bem concentrada em centros urbanos, enquanto a população rural e do subúrbio americano é grande e difícil de ser suprida de maneira rápida. As distâncias são maiores, então a logística é bem mais complicada.
Uma pesquisa realizada em 2017 pela Associação Paulista de Supermercados aponta que no Brasil 2% dos consumidores fazem as compras do mês online. O número de usuários que optam pelo delivery está aumentando, mas ainda é pouco representativo para a área. O que já pode ter mudado com a popularização de aplicativos que entregam “tudo”, como o Rappi.
O Rappi, startup colombiana que existe desde 2015, está apostando muito no mercado de delivery brasileiro. A empresa não precisa ter estoque, pois faz parcerias com lojas, restaurantes e supermercados, ganhando uma comissão nas compras feitas nesses estabelecimentos por meio do aplicativo. Mas ao contrário de um serviço como o Peapod, o Rappi foca em compras pequenas, pontuais, e não em fazer o famoso estoque mensal de suprimentos.
O custo é alto

O Brasil é um dos principais mercados para o Rappi, onde o app cresce cerca de 30% a cada mês. Presente em pelo menos 15 cidades, o plano é continuar crescendo. Além dos restaurantes, que representam boa parte das entregas feitas pelo Rappi, ainda estão farmácias, lojas de conveniência e supermercados, claro.
Mas a taxa de entrega de um serviço como esse não é nada convidativa. Em alguns estabelecimentos a taxa pode chegar a R$35, mesmo se você quiser comprar só um papel higiênico. O Rappi conta com um serviço de assinatura mensal de R$19,90 que isenta o usuário de pagar a taxa de entrega. Mas esse é um tipo de serviço que funciona para quem usa o app para tudo – segundo seus criadores, um usuário no Brasil pode fazer até 4 pedidos pelo Rappi durante uma semana, em média.
Ainda assim, você tem que lidar com falta de produtos, certa demora na entrega, disponibilidade de entregadores… É um serviço que facilita bem a vida quando você está ocupado demais para dar conta de ir no supermercado sozinho, mas funciona melhor com compras pequenas.
E tem o tempo de entrega

Grandes redes de supermercados como Extra, Pão de Açúcar e Carrefour possuem aplicativos e sites onde você pode realizar seus pedidos e receber as compras em casa, mas é um processo que leva horas, às vezes o dia inteiro. Justamente porque a entrega é feita com caminhões, que saem dos depósitos ou das lojas carregados de compras que vão sendo entregues durante uma viagem só. É o mesmo caso do Peapod.
Quem pode esperar não vê problema nisso, mas de novo, não é prático para quem precisa dos produtos na hora. Acaba sendo mais rápido, barato e vantajoso, ainda, ir até o mercado, escolher você mesmo os produtos e levar para casa. Mas até quando continuaremos comprando assim?