Em tempos em que se pode trocar um bife por um churrasco de melancia, há outras maneiras de mudar a alimentação sem impactar demais nossos velhos hábitos. Ser vegano não é só uma questão de princípios e decidir “ok, parei de comer carne”, como se fosse virar uma chave na nossa cabeça para automaticamente deixar os produtos de origem animal de lado – para alguns é mais fácil, para outros não.
É inegável que o interesse pela alimentação vegana e vegetariana está crescendo. No Brasil, o número de vegetarianos em 2018 é 75% maior em relação a 2012, segundo uma pesquisa do Ibope. No país, 14% da população se declara vegetariana, e em grandes cidades esse número sobe para 16% (em 2012 eram apenas 8%).

Pensando no desafio de trazer mais pessoas para o veganismo, empresas de alimentos usam a tecnologia para desenvolver produtos que incentivem essa mudança de hábitos. É o caso da The Not Company, do Chile, da Impossible Foods, dos EUA, e da Fazenda Futuro, do Brasil, que prometem revolucionar o mercado de alimentos
Sabor acima de tudo
Autointitulada uma food tech company, a The Not Co usa a tecnologia de machine learning para mapear moléculas de alimentos de origem animal e vegetal. Com isso, eles buscam maneiras de usar os vegetais para emular o sabor e a consistência de alimentos de origem animal. Como é o caso da Not Mayo, a maionese sem ovos que lançaram no mercado.
Para Matias Muchnick, um dos fundadores da The Not Co, a questão não é apenas incentivar o veganismo e pensar em formas mais sustentáveis para a cadeia alimentar. Mas também incentivar uma alimentação mais saudável, diferente dos alimentos de redes de fast food que se espalharam pela a América Latina – comida barata, mas com baixo valor nutricional e que causam problemas de saúde. A The Not Co quer ser uma alternativa acessível e, ainda assim, saudável.
92% dos consumidores da maionese vegana Not Mayo não são veganos.
A estratégia está dando certo – não é à toa que esse é o primeiro investimento de Jeff Bezos, da Amazon, na América Latina. A Not Mayo já ocupa 10% do mercado chileno e foi adotada pelo Google como sua maionese oficial. Segundo Muchnick, em palestra no Food Forum 2019, em São Paulo, 92% dos consumidores da Not Mayo compram o produto não por ser vegano, mas por causa do gosto.
Os próximos lançamentos da empresa serão o leite, o sorvete e o creme de nutella, tudo vegetal. A The Not Co também está desembarcando em breve no Brasil.
Uma carne vegana que sangra
Se o gosto é assim tão importante para não-veganos embarcarem nesse mundo, a aparência também tem peso na escolha do que comer. Criada em 2011, a Impossible Foods vem crescendo no mercado de carnes e laticínios norte-americano, mas sem usar um componente de origem animal sequer. Um dos investidores da empresa é Bill Gates, da Microsoft.
Seu carro-chefe é um hambúrguer que engana qualquer carnívoro: tem aspecto de carne, tem cheiro de carne, tem gosto de carne, mas não é carne. O processo é bem parecido com a The Not Co: estudando as moléculas da carne, eles encontraram equivalentes nas plantas para desenvolver um hambúrguer com todas as características que o faz ser tão apetitoso: cheiro, suculência e gosto.
Carne vegana: usa menos 75% de água na sua produção, 87% menos emissões de gases e 95% menos terra.
A Impossible Foods usa um ingrediente chamado “hemo”, abundante na carne e que conseguiram reproduzir com matéria-prima vegetal. O “hemo” é o que dá o gosto e o que faz o hambúrguer “sangrar”.
O produto da Impossible Foods está no cardápio do restaurante Momofuku Nishi, do chef David Chang, e também acabou de entrar no menu de algumas lojas do Burger King nos EUA. Em 2018, a empresa anunciou que já produz 226 toneladas de carne vegana por mês, economizando 75% de água, gerando 87% menos emissões de gases do efeito estufa e usando 95% menos terra.
O Brasil também ganhou uma versão de hambúrguer vegano que parece carne. Marcos Leta, fundador da Sucos do Bem, vai lançar agora em maio o Futuro Burger, que imita o sangue da carne utilizando beterraba.
Na receita do hambúrguer tem proteína de ervilha, proteína isolada de soja e grão-de-bico. Os ingredientes são da Fazenda Futuro, que vai produzir o hambúrguer em larga escala para que o preço não seja salgado, e o produto poderá ser encontrado no Pão de Açúcar (SP e RJ), St. Marche (SP e RJ), Zona Sul (RJ) e La Fruteria (RJ).
Com alternativas mais acessíveis e bem parecidas com alimentos de origem animal, os produtos veganos têm a chance de se popularizarem entre quem ainda não pensou em largar a carne.